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Segunda-feira, Junho 22, 2009
“Habitante Solitário da Grande Cidade”, por Herbert Bayer, 1932
Eis aí, de mãos abertas, sombras projetadas na parede, o habitante solitário da grande cidade. Olha para as próprias mãos, se enxerga através delas, percebe do que é capaz. Tão imenso como um prédio, e ao mesmo tempo quase invisível, sem corpo. Rodeado de apartamentos e janelas, mas sem ninguém.
O habitante solitário da grande cidade é um sujeito de fibra, apesar de tudo. Dotado de uma sensibilidade unusual, suporta o que tem que suportar e supera o que tem que superar. Sabe que fazer o que se quer fazer e pensar o que se quer pensar, sozinho e nominalmente, não é fácil. E tem certeza, quase certeza, que sua condição não é bem a de indivíduo só, mas sim de estado só. Que tudo não passa de uma sensação que toma de assalto seu espírito, por uma série de conjunções, possibilidades e impossibilidades.
Estágio 3, por Felipe Chiaramonte, 2009
Ensaio fotográfico "Estágio 1, Estágio 2, Estágio 3, Estágio 4. E inicia-se novamente...", no Flickr.
postado por Felipe às
8:56 AM
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Quarta-feira, Junho 17, 2009
“The Genesee Hotel Suicide”, por I. Russel Sorgi, 1942
"Hello, miss, I would like a cup of coffee while I wait.
What are you waiting for?
Oh, you know, the usual.. the end of the world."
- Neil Gailman, em "Prelúdios e Noturnos"
Mas que maneira trágica de retomar este blog! Com a ex-senhora Mary Miller se atirando do Genesee rumo ao chão e com uma tranquila espera pelo fim do mundo num café de esquina. Menos mal que o rascunho deste post ficou arquivado por algumas semanas, até que finalmente me coloquei na linha de um trem movido a endorfina e decidi atualizar todas as informações e fotos dos menus laterais e, claro, voltar a postar!
Começar, ou recomeçar, é sempre um esforço enorme - mas não sobrehumano, já que é justamente nesses momentos, bem nessas horas que você se encontra na lama e grita "sou eu que vou te engolir, mundo gosmento!", que nos tornamos surpreendentemente ferozes e determinados a arregaçar as mangas e tudo o mais que vier pela frente.
Evidentemente não é fácil. Por mais vontade que você tenha, a coisa vai te puxando pra baixo, até você esborrachar no asfalto.
(A COISA!)
Ela mesma, como aquele iogurte branco gigante de um filme "B" ("The Stuff"!) dos anos 80. A coisa anda se arrastando por aí, engolindo felizes almas, hidrantes e outros bagulhos pelas ruas. E, numa dessas, naquele instante em que a menininha de vestido rosa pisa no chão para atravessar a rua e virar mulher, em que o pombinho sujo encontra a pombinha com a mesma quantidade de ácaros, em que o balão vermelho sobe tanto no céu azul que chega ao lado do ônibus espacial na termosfera, que a coisa te pega.
Imerso numa quantidade enorme de proteínas que envolvem, cobrem e grudam por todos os lados (mas não trazem benefícios nenhum - afinal, são proteínas sufocadoras estupradoras de poros) só é possível sentir frio, aquele frio de primeira estante da geladeira, e sufoco. Quando os 10.000 potes de iogurte estão quase cobrindo o corpo por inteiro, é aí que os músculos, que por sinal são babões por proteína mas estúpidos demais para agirem sozinhos, começam a se debater e tentar fazer alguma coisa. Não por mérito próprio, como disse, mas porque alguém onipresente lá em cima acaba tendo piedade. Alguém com vários tentáculos, membranas e pequenas outras minúcias, multiplicado por oitenta e seis bilhões, formando teais, ligações e ramificações dentro do seu crânio, e gerando eletricidade capaz de acender algumas lâmpadas, iPODs e até um X-Box, mas que, tendo consciência verde, ou melhor, ecobiológica, acaba gerando um coquetel químico moloko-molotov que é capaz de, no mínimo, fazer uma cocegazinha ou deixar sua nádega direita dormente.
Enquanto as alucinações surgem e o corpo debate descontrolado - ou mesmo quando isso é sinônimo -, no canto da sala cheia de muco certamente deverá haver um rádio sintonizado. Entre a miríade de boas possibilidades capazes de acalorar as placas motoras, sarcolemas e tecidos para assim trabalharem como devem, animadamente, "Jumpin' Jack Flash", "Whatever Happened To My Rock 'N Roll", "Gimme Danger", "Volunteers" certamente são capazes de tacar fogo na botija e ajudar a sair dessa! Porque se lamúrias como "Schizophrenia's Weighted Me Down", "Creep", "Green Grass", "Nobody Loves Me" estiverem sendo entonadas pelos treze cantos, não haverá muita gana nem eletricidade para produzir impulsos que gerem, hm... um outro, um maior, um extraordinário, um quase sobrehumano impulso! Um pulo do macaco doido! Não. Tudo arrefece. É a mesma história das mimosas que produzem mais leite escutando as vibrações e acordes de Simon & Garfunkel e Beethoven. Ou seja, um puxão para fora do iogurte-movediço pode depender de estar sintonizado em uma categoria de maior ou menor acorde.
(A CORDA!)
E é AÍ! AÍ que se deve enfiar no toca-disco esquecido sob a estante de livros, que foram comprados mas não lidos, aquele filme do cara paralítico que escreve um best-seller só piscando o olho esquerdo para uma secretária, que faz todas as anotações do que está morsemente sendo "dito" num caderninho ("O Escafandro e a Borboleta"), e pensar: "diabos, como é possível DEIXAR-SE engolir por um IOGURTE!". Pois o sujeito, que era editor da Elle francesa, bon-vivant, milionário e atracava todas as pombinhas (passagem quatro vezes redundante, mas vale frisar), teve forças para ficar piscando por meses, tempos, dentro de um escafandro imerso em uma penca de fermentação bacteriana, para que no final submergisse triunfante, mesmo sobre a morte. Portanto, que coisa mais ridícula é ser engolido por um iogurte! Ainda mais se for um iogurte vencido e não desnatado.
(THE HOPE!)
Por isso Ozamu Tesuka fica acenando com os 14 volumes de "Buda" em mangá, ali sobre a mesa circular de vidro estilhaçado. Maitri, Karuna, Mudita, Upaksha. Amor, compaixão, felicidade e paz. Bodhicitta! A sabedoria sendo pregada pelo velho pinheiro, a verdade sendo gritada pelo pássaro selvagem, Buda em um quilo e meio de linho. O Tao, o caminho das coisas, está logo aqui, ali, lá, ultrapassando o café da esquina e a espera do fim do mundo. Alan Watts, ao lado da montanha de páginas de "Buda" com seu "O Espírito Zen" é capaz de magnetizar conjuntamente com Tezuka esse pólo de 7x10^27 átomos, esse pudim de passas que é o corpo, para fora do lodo iogúrtico canibal. Tenho certeza que se as vaquinhas que escutam Simon & Garfunkel soubessem ler e apreciar quadrinhos, estariam na Livraria Cultura produzindo mais leite! Então, por que não lançar os olhos à órbita dos morros polares sobre aquela mesinha transparente?
(JUST WAR!)
Just war, Just war
You said it would have hurt
Just war, Just war
Is this just war?
Is this just war?
The last survivor crawling through the dirt
And further more
Will evolutuion diminish right in front of us
Danger Mouse, Sparklehorse e Gruff Rhys clamam - faça guerra apenas contra o iogurte. Mas em justa causa, não apenas uma justa guerra!
E assim, depois de arregaçar, escutar, ultrapassar, ler, engolir, meditar e fagocitar o inimigo antes de ele mesmo mesmo fazer isso com seu pudim, em jus post bellum de iogurtum, o decreto gastrointestinal vigente indica suprimentos e suprimentos de adubo de origem láctea-galática como recompensa. Mas sabe o quê? Tudo bem, é assim que a COISA é. Merda como espólio de uma guerra particular - crescimento nutritivo ao par, com um fedor gratificante no ar. E, ah! Logo que recobrar a mobilidade dos músculos, não esqueça de reciclar os 10.000 potes de iogurte! Danke schön e bom recomeço para você também, se é que você acabou de tomar um banho de cálcio.
postado por Felipe às
2:24 PM
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Sexta-feira, Setembro 19, 2008
O balde que havia enchido com água ao longo do percurso escorregou e caiu em cima de seu pé. PÁ! Lá se foram os dedinhos. Rolando por uma ribanceira, o dedão de tantas unhas encravadas entalou-se em um estreito buraco de esgoto que outrora era o causador de alagamentos na região. O efeito foi imediato. Torrentes jorraram mais fortes das pias e chuveiros da vizinhança, e um cachorro que trotava por ali teve que procurar outra poça para matar sua sede - não achou e endoideceu, mordendo, naquela noite, a bunda de uma das vizinhas, que sequer se deu conta do fato, de tão insignificante que o era o cão. Por sua vez, o dedo médio flutuou pela piscina recém formada e escorregou, por entre filetes, até um piquenique próximo. Foi engolido, na sequência, por uma criança, que felizmente não se engasgou. Indagado o infante sobre o motivo de brincar, dias depois, com um dedo putrefado em meio a uma guerra de soldadinhos, alegou que havia achado o novo brinquedo no pinico, em meio a restos de milho e de caquinha, que evidentemente não lhe instigaram o mesmo interesse. Foi presenteada, assim, com nove anos de castigo. Entremeios, anelar e indicador, desesperados com o ocorrido, decidiram unir forças e costuraram-se um ao outro. Instantes depois descobriram a realidade da situação. Estavam livres de um corpo controlador e de idéias malucas. Mas o entendimento veio tarde, pois agora a submissão era de um para com o outro. Na ânsia de se soltarem, bateram dedos e, inesperadamente, acabaram por alçar vôo. Nunca mais foram vistos nem em céu nem em terra. O destino do mindinho foi o mais corriqueiro e inexpressivo. Seu dono o recuperou, colocando-o no lugar. Sozinho, o minúsculo carregou o balde vazio de volta à toca.
postado por Felipe às
1:56 AM
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Domingo, Julho 20, 2008
Eis que se confirmam os agouros! Estou atracado há quase dois meses.
postado por Felipe às
5:35 PM
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Quinta-feira, Abril 10, 2008
Estes últimos meses, que estimulantes! Tantos lugares, pessoas e idéias. De alguns dos lugares faltou a completude, mas restaram as peças a encaixar, em tempo. De algumas das pessoas sobrou apenas o cinismo, mas de outras formou-se um magnetismo efervecente - em frente! E as idéias, estas só clamam pela prática. Pois bem! Estes próximos meses, que instigantes!
postado por Felipe às
1:00 AM
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Domingo, Março 23, 2008
O Beijo, de Rodin, em releitura de Cornelia Parker, A Distância.
Baise-moi, ela disse.
Beijá-la, ele entendeu.
Uniram-se em um desastre, assim.
Cada qual em seu idioma.
postado por Felipe às
4:08 AM
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